África / Nigéria
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Nigéria, o país cercado por

 suas próprias sombras

 

Nexus Geopolítico, 22/11/2025

 

A Nigéria atravessa um momento em que sua própria história parece retornar em ondas, como se cada novo sequestro, cada ataque a escolas e igrejas, cada aldeia incendiada no silêncio da noite fosse o eco insistente de problemas estruturais nunca resolvidos. O país volta a ocupar manchetes internacionais após uma sucessão de sequestros em massa e ataques de grupos armados que levaram crianças de salas de aula, fiéis de templos religiosos e comunidades inteiras da frágil sensação de normalidade. Em Kebbi, vinte e cinco meninas foram arrancadas de uma escola islâmica; em Zamfara, sessenta e quatro pessoas desapareceram de uma só vez; em Kwara, um ataque a uma igreja resultou em mortes e dezenas de reféns; no estado do Níger, cinquenta e dois estudantes de uma escola católica foram levados sem que qualquer autoridade pudesse reagir de imediato. Tudo isso ocorre enquanto o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, reacende a retórica de intervenção sob o argumento de suposta perseguição sistemática a cristãos, movimento que expõe novamente a Nigéria ao risco de ser transformada em palco de agendas externas que pouco dialogam com a realidade local.

As origens desse ciclo de violência não podem ser compreendidas sem voltar algumas décadas no tempo, quando a transição da ditadura militar para a democracia, no fim dos anos 1990, encontrou um país sem instituições consolidadas e com regiões inteiras abandonadas pelo Estado. A fratura entre norte e sul, alimentada por desigualdades econômicas profundas, ofereceu combustível para que surgissem centenas de grupos armados que viram no sequestro uma fonte rápida de renda. No noroeste, pequenas quadrilhas se transformaram em redes que operam como empresas criminosas, munidas de armas contrabandeadas e protegidas por florestas densas onde a presença do Estado nunca se fez sentir. Essa economia subterrânea tornou-se ainda mais lucrativa à medida que escolas rurais e igrejas passaram a ser percebidas como alvos fáceis. O sequestro de estudantes tornou-se um negócio estável, sustentado pelo desespero de pais dispostos a vender terras, animais e bens para ver seus filhos de volta.

A expansão dessas quadrilhas, contudo, deve muito à devastação provocada por grupos jihadistas como Boko Haram e ISWAP, cuja insurgência no nordeste desde 2009 criou um vácuo de poder que se espalhou como rachadura por todo o país. Boko Haram, nascido como movimento religioso radical contra a influência ocidental, tornou-se uma força insurgente que devastou estados inteiros, destruindo aldeias, impondo sua própria lei, raptando jovens e desencadeando uma crise humanitária que já desalojou mais de dois milhões de pessoas. O grupo se fragmentou, produzindo dissidências mais violentas, como o ISWAP, que opera com lógica quase estatal nas margens do Lago Chade, cobrando tributos, administrando territórios e recrutando jovens sem perspectiva de futuro. O colapso institucional provocado por essa insurgência permitiu que criminosos comuns se fortalecessem, replicando táticas de sequestro e ampliando a escala da violência.

As regiões centrais do país sofrem com outro tipo de ferida. No chamado Middle Belt, cristãos agricultores e pastores muçulmanos se enfrentam há décadas em disputas por território, água e sobrevivência em um ambiente marcado pela desertificação do Sahel. Embora muitos observadores externos insistam em ver esse conflito como puramente religioso, a verdade é mais complexa: trata-se de um embate por recursos, agravado por mudanças climáticas, ausência de mediação estatal e manipulação política de identidades étnicas. Tanto cristãos quanto muçulmanos morrem nos confrontos, e aldeias inteiras desaparecem sem que o governo consiga impor qualquer solução duradoura. Esse ambiente instável reforça a narrativa de perseguição religiosa, frequentemente instrumentalizada por líderes estrangeiros e por grupos internos interessados em ampliar tensões.

A crise torna-se mais profunda quando se considera a fragilidade das instituições nigerianas. A polícia carece de treinamento e recursos, o Exército enfrenta deserções, casos de corrupção e falta de equipamento adequado, e governos estaduais divergem do governo federal a respeito de estratégias de segurança. Em algumas regiões, líderes tradicionais assumem o papel que caberia ao Estado, negociando com criminosos, firmando pactos provisórios e tentando manter alguma estabilidade local. Essa fragmentação institucional abre espaço para que grupos armados atuem com liberdade cada vez maior, cruzando fronteiras estaduais sem enfrentar resistência à altura. A corrupção que permeia o sistema nigeriano impede que recursos destinados à segurança cheguem a seu destino final, enquanto armas circulam com facilidade pelas fronteiras mal vigiadas do Níger, Chade e Camarões.

O país também vive as consequências da explosão demográfica mais rápida do continente africano. Com mais de 220 milhões de habitantes, metade deles com menos de dezoito anos, a Nigéria não consegue oferecer educação de qualidade, saúde pública sólida ou empregos suficientes para absorver essa massa de jovens à procura de futuro. Milhões ficam à margem de qualquer perspectiva de ascensão e se tornam presa fácil, seja do jihadismo, seja dos bandos criminosos que prometem renda rápida e poder. A deterioração econômica alimenta o círculo da violência, enquanto o Estado falha em modernizar sua economia para além da dependência histórica do petróleo, que sofre com variações internacionais e corrupção endêmica.

Dentro desse cenário, as narrativas externas complicam ainda mais o ambiente interno. O discurso de Trump, ao insinuar ação militar para proteger cristãos, irritou setores do governo nigeriano e acirrou debates sobre soberania, ingerência estrangeira e exploração geopolítica da crise. Nacionalistas acusam Washington de tentar transformar a Nigéria em laboratório de políticas intervencionistas; opositores internos acusam Abuja de não proteger adequadamente sua população. A verdade é que a Nigéria, fragmentada e exposta, vive entre pressões externas e seus dilemas internos enquanto tenta conter incêndios que se multiplicam em todas as regiões.

O presidente Bola Tinubu enviou representantes para acompanhar operações de resgate, mas a reatividade do governo demonstra o quanto a máquina estatal está sempre chegando depois do desastre. As autoridades tentam reorganizar estratégias, aumentar o patrulhamento e buscar cooperação com países vizinhos, mas o avanço dos grupos armados é mais rápido que a capacidade do Estado de responder. A violência se espalha por estradas rurais, mercados, igrejas e escolas, transformando o quotidiano de milhões de nigerianos em uma vivência permanente de medo. A cada sequestro, comunidades inteiras são paralisadas; a cada ataque, o país revisita suas feridas mais profundas.

A Nigéria continua presa em um labirinto de crises sobrepostas e interdependentes. Nada que está acontecendo hoje surgiu do nada; tudo é efeito de raízes históricas profundas somadas a um presente marcado por desigualdade, colapso institucional, rivalidades regionais, jihadismo, criminalidade organizada e interferências externas. Enquanto essas forças continuarem a operar de forma simultânea e descontrolada, os caminhões seguirão carregando corpos para funerais discretos, escolas continuarão sendo portas abertas para o terror e igrejas permanecerão como possíveis alvos de grupos que já não temem o Estado. O país que poderia ser o motor econômico do continente africano continua enredado em suas próprias sombras, sem conseguir romper o círculo de insegurança que se fecha a cada dia um pouco mais.