Fronteiras em Ebulição, Vozes Silenciadas. Os Conflitos Invisíveis da Rússia Contemporânea
Nexus Geopolítico, 29/11/2025
A Federação Russa costuma ser percebida, sobretudo por leitores distantes de sua geografia e dinâmica interna, como um Estado monolítico, dotado de uma unidade cultural, política e territorial quase inabalável. Essa percepção, embora conveniente para discursos diplomáticos e para a projeção de poder de Moscou, esconde um mosaico de tensões que atravessam repúblicas étnicas, regiões fronteiriças, áreas industrializadas e comunidades rurais que carregam cicatrizes profundas de violência histórica, deslocamentos, autoritarismo e conflitos não resolvidos. Observar a Rússia a partir das fissuras que ela abriga ajuda a compreender a fragilidade estrutural de um país que tenta manter coesão sobre um território que vai do Mar Negro ao Pacífico, e onde conflitos como o de Inguchétia não são exceção, mas síntese de uma crise mais ampla.
A Inguchétia representa precisamente esse ponto de contato entre memória, violência e disputa pelo presente. A república traz consigo a lembrança das deportações stalinistas de 1944, que arrancaram todo o povo inguche de suas montanhas, lançando-o em longas travessias até a Ásia Central, onde milhares pereceram. O retorno em 1957 foi apenas parcial, pois tensões de fronteira com a Ossétia do Norte, sobretudo em torno do distrito de Prigorodny, permaneceram sangrando. A guerra aberta de 1992 entre inguches e ossétios deixou mortos, desaparecidos e famílias expulsas, algo jamais resolvido plenamente. A partir dos anos 2000, a república também foi tragada pela guerra chechena, atraindo insurgentes, células islamistas e operações antiterroristas de larga escala conduzidas por Moscou que produziram desaparecimentos, denúncias de tortura e insegurança permanente. A partir de 2018, novos protestos massivos emergiram quando parte do território inguche foi cedido à Chechênia de Ramzan Kadyrov, e o governo respondeu com repressão, prisões e silenciamento de lideranças. Este é o retrato: um povo encurralado entre memória traumática, guerra importada e um Estado que prefere punir a ouvir.
Esse padrão se repete no Daguestão, república vizinha e ainda mais diversa etnicamente. Ali, a multiplicidade de povos seria motivo de riqueza cultural, mas também se converteu em alvo fácil para a infiltração de grupos islamistas e, sobretudo, para políticas de segurança que tratam toda a população como potencial suspeita. Nos últimos anos, ataques coordenados contra igrejas, sinagogas e postos policiais sacudiram cidades como Derbent e Makhachkala, resultando em dezenas de mortos. Moscou respondeu com operações antiterroristas, varreduras em bairros inteiros, prisões e acusações de cumplicidade coletiva que alimentam ressentimento. O Estado russo parece aplicar sempre a mesma fórmula: diante de violência, responde com mais violência, sem desmontar redes criminosas nem pacificar a vida social. O resultado é que cada ataque reforça a lógica securitária, e cada operação securitária aprofunda a sensação de abandono e injustiça.
A Chechênia, por sua vez, tornou-se vitrine de um modelo de controle que oscila entre estabilidade fabricada e terror cotidiano. Após duas guerras devastadoras, Moscou delegou a Ramzan Kadyrov um poder quase absoluto sobre a república. Sob sua administração, a região deixou para trás a insurgência aberta, mas adotou um regime de ultralealdade à Rússia em troca de autonomia para reprimir opositores, perseguir minorias, impor padrões religiosos e sociais e sufocar qualquer dissenso. A paz aparente tem custo alto. Desaparecimentos, torturas, execuções extrajudiciais e campos secretos são relatados por organizações independentes. O governo central, consciente de que a Chechênia pacificada a qualquer custo representa menos um risco para sua estabilidade, fecha os olhos e alimenta o poder de Kadyrov com recursos federais, preservando uma espécie de pacto tácito onde todos sabem o que acontece, mas ninguém admite publicamente.
Kabardino-Balkária, embora menos noticiada do que Daguestão e Chechênia, enfrenta conflitos semelhantes. A capital Nalchik já viveu levantes armados, e operações policiais frequentes indicam que militantes islamistas continuam ativos, mesmo que dispersos. Muitos jovens, pressionados por desemprego, corrupção de elites locais e discriminação, veem-se empurrados para redes clandestinas. Moscou insiste na mesma abordagem punitiva, ampliando acusações de extremismo e deixando um rastro de prisões que, longe de dissolver tensões, as agrava silenciosamente. A república vive num estado permanente de expectativa, onde qualquer incidente isolado ativa uma cadeia de respostas estatais desproporcionais.
Longe do Cáucaso, conflitos diferentes, mas igualmente preocupantes, se expandem no Volga-Urais. O Bashkortostão tornou-se exemplo disso. Em 2024, protestos de massa tomaram a região após a condenação de uma liderança local que defendia o meio ambiente e a identidade bashkir. Esses protestos, que reuniram milhares de pessoas, foram encarados pelo Kremlin como ameaça direta ao controle central. A repressão foi imediata: gás lacrimogêneo, prisões, acusações de motim e processos criminais. Aquilo que, à primeira vista, parecia movimento regionalista, ampliou-se para um debate sobre autonomia, preservação cultural e imposição do modelo federativo russo. O Bashkortostão expôs a crise de legitimidade de Moscou em regiões que, embora distantes do front militar, sentem na pele o cerco autoritário.
No Tartaristão, a tensão é mais política do que policial, mas não menos significativa. A república já foi a mais autônoma da Rússia pós-soviética, com sistemas de ensino próprios, legislação cultural robusta e elites políticas influentes. A partir de 2017, Moscou iniciou um processo de esvaziamento dessa autonomia, extinguindo o título de presidente da república, reduzindo o ensino da língua tártara e criminalizando movimentos nacionalistas. O conflito, aqui, toma forma de erosão lenta, onde a cultura local resiste à centralização estatal enquanto Moscou busca silenciar vozes que evocam identidade própria. As consequências podem ser profundas, sobretudo se o centro continuar a desmantelar pactos históricos de convivência.
No Extremo Oriente e na Sibéria, a fissura é social e geopolítica ao mesmo tempo. Repúblicas como Buriátia, Tuva e Sakha foram desproporcionalmente afetadas pela mobilização militar para a guerra na Ucrânia. Muitas aldeias indígenas perderam grande parte de seus jovens enviados para a linha de frente. A combinação de perdas humanas, sentimento de injustiça e marginalização histórica provocou protestos de mães, esposas e comunidades inteiras, criando tensões raras em regiões tradicionalmente submissas ao centro. Moscou tentou conter esses movimentos com propaganda patriótica, ameaças de processo e, em alguns casos, distribuição de benefícios econômicos mínimos, estratégia que não soluciona a causa de fundo: a percepção de que os povos não russos estão pagando um tributo desproporcional pela política imperial russa.
Mas o conflito não se restringe às periferias étnicas. Ele reverbera nas grandes cidades e nas fronteiras ocidentais, onde a guerra na Ucrânia transformou regiões russas como Belgorod e Kursk em verdadeiras zonas cinzentas. Bombardeios, ataques de drones, incursões de grupos armados e operações militares de resposta converteram cidades pacatas em territórios de guerra de baixa intensidade. Moscou os apresenta como incidentes isolados, mas a recorrência das operações revela desgaste sério. A sensação de segurança interna, construída ao longo de décadas de propaganda, vem sendo abalada. As populações locais, muitas vezes deixadas sem proteção efetiva, acumulam frustrações e denunciam descaso, enquanto o governo tenta conter danos investindo em simbolismos patrióticos e reforço policial.
Há ainda um conflito difuso que atravessa todo o território russo, ligado à xenofobia e à insegurança alimentadas pelo atentado contra a casa de shows Crocus City Hall em 2024. Após o ataque reivindicado pelo Estado Islâmico Khorasan, uma onda de hostilidade contra migrantes da Ásia Central espalhou-se por cidades como Moscou e São Petersburgo. Operações policiais em massa, detenções arbitrárias e discursos políticos inflamados criaram uma atmosfera sufocante para milhões de trabalhadores pobres, muçulmanos e não russos. O governo, em vez de separar terrorismo de migração, fundiu ambos em um único discurso de segurança, ampliando o fosso social e criando terreno fértil para radicalizações futuras.
Ao observar esses cenários em conjunto, emerge um diagnóstico inquietante. A Rússia contemporânea tenta manter unidade através de uma combinação de militarização, centralização e discursos patrióticos que prometem estabilidade enquanto, ao mesmo tempo, sufocam identidades regionais, criminalizam protestos, reprimem culturas locais e transformam diferenças internas em ameaças existenciais. Moscou administra conflitos, não os resolve. As consequências de longo prazo podem incluir fragmentação política, aumento da insurgência localizada, explosões sociais espontâneas e um desgaste profundo da legitimidade estatal, sobretudo se o custo humano e econômico da guerra na Ucrânia continuar a se acumular.
Esse panorama revela que a Rússia vive uma crise silenciosa que se expande da Inguchétia ao Pacífico, passando por centenas de cidades onde a repressão parece ser o único idioma estatal. Cada uma dessas regiões traz histórias ancestrais, feridas abertas e confrontos recentes que, somados, compõem um retrato complexo de um país que tenta esconder suas rachaduras atrás de uma fachada de força e centralização. Ao expor essas fissuras, compreende-se que a estabilidade russa é menos sólida do que parece. É um equilíbrio tenso, mantido por mecanismos que, embora eficazes no curto prazo, carregam potenciais explosivos no médio e longo prazo.


