Geopolítica Global
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Entre Davos e Washington, a Nova Geopolítica da Desconfiança

 Nexus Geopolítico, 23/01/2026

 

O encontro anual em Davos funciona como um termômetro sensível das forças que se movem silenciosamente no sistema internacional. Neste ano, a atmosfera deixou claro que a posição global dos Estados Unidos se encontra fraturada, não apenas por desacertos diplomáticos pontuais, mas por uma mudança estrutural na forma como Washington se relaciona com o mundo. A presença americana, antes vista como eixo estável das discussões multilaterais, passou a provocar desconfortos que se acumulam em conversas reservadas, nos painéis públicos e até mesmo nas ausências estratégicas de chefes de Estado que, em outros tempos, jamais deixariam de prestigiar o evento.

A política externa de Donald Trump, agora em sua segunda etapa, alimenta essa erosão ao adotar um discurso de desconfiança permanente em relação às instituições multilaterais. Isso gera a impressão de que os Estados Unidos já não se percebem como guardiões da ordem que ajudaram a construir, mas como um ator que avalia cada compromisso sob o prisma de ganhos imediatos. Esse comportamento produz tensões nos aliados tradicionais, que observam com inquietação o enfraquecimento de pilares antes considerados imutáveis. Quando Washington ameaça rever acordos ambientais, questiona o funcionamento de organizações internacionais e impõe condicionamentos econômicos a parceiros históricos, os outros atores concluem que a previsibilidade norte americana deixou de ser um bem garantido.

Enquanto isso, a China ocupa o espaço vago com uma habilidade calculada. Os representantes chineses chegam a Davos com discursos modulados pela ideia de estabilidade, parceria e integração. Não se trata de altruísmo, mas de uma estratégia que combina ambição econômica com pragmatismo geopolítico. Em um ambiente saturado por incertezas americanas, a narrativa de Pequim gera curiosidade e atenção. A Belt and Road Initiative (Iniciativa Cinturão Rota) se torna uma alternativa concreta para países que buscam financiamentos, infraestrutura e um horizonte de longo prazo. Embora muitos mantenham reservas em relação às intenções chinesas, o contraste com o comportamento errático de Washington tende a favorecer a percepção de que a China se converterá, cedo ou tarde, em uma âncora mais confiável para parte da economia global.

Há também um movimento menos visível, mas igualmente relevante. Trump conquista um tipo de apoio paralelo, formado por governos que se identificam com sua estética política, marcada por nacionalismo, transações bilaterais e rejeição a consensos internacionais. São apoios marginais no sentido de não ocuparem os centros tradicionais de poder econômico, mas expressivos por revelarem que a lógica trumpista cria seus próprios círculos de influência. Esses grupos se reúnem em Davos não para reforçar o multilateralismo, mas para celebrá-la como arena de negócios, transformando a política externa em uma extensão de interesses domésticos imediatos.

O resultado é um fórum mais fragmentado. De um lado, líderes tradicionais tentando preservar alguma ordem cooperativa. No outro extremo, a China preenchendo o vazio com promessas de continuidade. Entre ambos, um bloco heterogêneo que enxerga na postura americana não um problema, mas um modelo a ser replicado. A deterioração da posição internacional dos Estados Unidos não se dá de forma abrupta, mas por meio desses deslocamentos acumulados que, somados, revelam um país menos ouvido, menos previsível e menos central.

Esse cenário projeta incertezas profundas no tabuleiro mundial. Se Davos serve como vitrine do futuro próximo, a impressão dominante é de que o mundo caminha para uma reorganização silenciosa, em que a influência americana se mantém relevante, embora cada vez mais contestada por atores que aprenderam a navegar em uma ordem onde Washington já não dita sozinho o ritmo nem as regras